[...]Hoje sabe-se muito cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.
Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem e por senti-lo, morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir terminar este relato.
Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mas mentir a si mesmos.
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode, Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo , mas cada um - resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial - tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.
(Prólogo do livro Demian, de Herman Hesse.)
Essa semana esse livro me foi lembrado em uma conversa. Bastante significativo para mim.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
domingo, 31 de agosto de 2008
olho as minhas mãos
Olhos as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras!
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar.
Mas nada, disso tudo, diz: "existo".
Porque apenas existem...
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheiros de esperança e medo, Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar...
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação!
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos?
Quem faz - em mim - esta interrogação?
(Mário Quintana)
Dos meu prediletos.
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo do mar...
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras!
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar.
Mas nada, disso tudo, diz: "existo".
Porque apenas existem...
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheiros de esperança e medo, Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar...
Nem na estrela do céu nem na estrela do mar
Foi este o fim da Criação!
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos?
Quem faz - em mim - esta interrogação?
(Mário Quintana)
Dos meu prediletos.
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
"Meu filho,
Você é um ser.
Existe na mediado do mundo.
É pouco.
O mundo é a constatação da realidade exterior que te cerca.
É a tua medida inicial.
É o teu começo, mas não o teu fim.
É o chão da tua expressividade, pois você é um ser vertical.
Para cima do chão há o "invisível".
Você pode olhar os seus pés, mas não a sua própria imagem.
Esta você a percebe.
Na verticalidade está a medida da sua procura.
Quando você aceita a simples constatação da vida, aí sim, será o seu começo.
O primeiro sentimento será de perda pois tudo que cai na constatação é vivido como ganho.
Tudo adquirido como perda até a integração absoluta do "o percebido" no seu inteiror,
é a própria dinâmica da vida: perde-ganha.
Quando você se sentir no mais absoluto desespero você está sendo salvo.
Solte e aceite a tua intuição que te levará a uma aparente solução - solução esta sempre provisória.
Aceite o provisório, pois jamais o processo pode parar.
A vida pode vir a ser uma realidade extraordinária, desde que você esteja voltado para sua procura interior.
Não há realidade independente do o "interior de si".
Desconfie das coisas claras, a pureza é descoberta dentro da maior conturbação de um crise. É o ponto luminoso dentro da maior escuridão.
O teu corpo, meu filho, é o veículo da tua vivência.
Não o impeça de florir por nada. Cuide dele como você cuida do teu carro,
Toda a tua riqueza interior vai suá-lo, sujá-lo, e até sangrá-lo.
Quando ele estiver gasto externamente você mesmo estará mais inteiriço e completo interiormente.
Você o despirá um dia como a crisálida deixa o casulo.
Ai de você se neste momento você é ainda o início não elaborado, pois aí você vai saber que esteve permanentemente morto em vida."
(Carta de Lygia Clark para seu filho, 1970)
Essa carta é muito rica. Tenho uma na primeira gaveta do meu criadomudo. Sempre que necessário, recorro a ela.
Você é um ser.
Existe na mediado do mundo.
É pouco.
O mundo é a constatação da realidade exterior que te cerca.
É a tua medida inicial.
É o teu começo, mas não o teu fim.
É o chão da tua expressividade, pois você é um ser vertical.
Para cima do chão há o "invisível".
Você pode olhar os seus pés, mas não a sua própria imagem.
Esta você a percebe.
Na verticalidade está a medida da sua procura.
Quando você aceita a simples constatação da vida, aí sim, será o seu começo.
O primeiro sentimento será de perda pois tudo que cai na constatação é vivido como ganho.
Tudo adquirido como perda até a integração absoluta do "o percebido" no seu inteiror,
é a própria dinâmica da vida: perde-ganha.
Quando você se sentir no mais absoluto desespero você está sendo salvo.
Solte e aceite a tua intuição que te levará a uma aparente solução - solução esta sempre provisória.
Aceite o provisório, pois jamais o processo pode parar.
A vida pode vir a ser uma realidade extraordinária, desde que você esteja voltado para sua procura interior.
Não há realidade independente do o "interior de si".
Desconfie das coisas claras, a pureza é descoberta dentro da maior conturbação de um crise. É o ponto luminoso dentro da maior escuridão.
O teu corpo, meu filho, é o veículo da tua vivência.
Não o impeça de florir por nada. Cuide dele como você cuida do teu carro,
Toda a tua riqueza interior vai suá-lo, sujá-lo, e até sangrá-lo.
Quando ele estiver gasto externamente você mesmo estará mais inteiriço e completo interiormente.
Você o despirá um dia como a crisálida deixa o casulo.
Ai de você se neste momento você é ainda o início não elaborado, pois aí você vai saber que esteve permanentemente morto em vida."
(Carta de Lygia Clark para seu filho, 1970)
Essa carta é muito rica. Tenho uma na primeira gaveta do meu criadomudo. Sempre que necessário, recorro a ela.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Sentados à beira do rio, dois pescadores seguram suas varas à espera de um peixe. De repente, gritos de crianças trincam o silêncio. Assustam-se. Olham para a frente, olham para trás. Nada. Os berros continuam e vêm de onde menos esperam. A correnteza trazia duas crianças, pedindo socorro. Os pescadores pulam na água. Mal conseguem salvá-las com muito esforço, eles ouvem mais berros e notam mais quatro crianças debatendo-se na água. Desta vez, apenas duas são resgatadas. Aturdidos, os dois ouvem uma gritaria ainda maior. Dessa vez, oito seres vindo correnteza abaixo. Um dos pescadores vira as costas ao rio começa a ir embora. O amigo exclama: - Você está louco, não vai me ajudar? Sem deter o passo, ele responde: - Faça o que puder. Vou tentar descobrir quem está jogando as crianças no rio.
(Lenda indiana)
Ao ler essa lenda percebi que ela remete mais ou menos à função na sociedade que eu pretendo exercer.
sábado, 23 de agosto de 2008
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
metáfora literária
Era um homem velho e solitário que passava a maior parte do tempo na cama. Corriam boatos de que tinha um tesouro escondido em casa. Certo dia apareceram alguns ladrões: vasculharam tudo e encontraram um baú no porão. Arrastaram-no para fora e, ao abri-lo, viram que estava cheio de cartas. Eram as mensagens de amor que o velho recebera no curso de sua longa vida. Os ladrões iam queimar as cartas, mas, conversando a respeito, decidiram devolvê-las. Uma por uma. Uma por semana. Desde então, todas as segundas-feiras ao meio-dia, o velho ficava esperando o carteiro aparecer. E logo que o via, o velho voava ao seu encontro; o carteiro, que sabia de tudo, entregava-lhe a carta. E até São Pedro podia ouvir o pulsar daquele coração, ensandecido pela ventura de receber uma mensagem de mulher.
(Eduardo Galeano, em Livros dos Abraços)
Uma síntese da sensação que a literatura provoca em nós!
(Eduardo Galeano, em Livros dos Abraços)
Uma síntese da sensação que a literatura provoca em nós!
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
sem as plumas, numas.
Há muita coisa ainda a dizer.
Há muita coisa ainda a fazer.
Há muita coisa ainda a querer.
Há muita coisa ainda a viver, pra morrer.
Há muita coisa ainda a surgir.
Há muita coisa ainda a cantar.
Há muita coisa ainda pra ir.
Há muita coisa em qualquer lugar pra notar.
Riam, chorem , sonhem, soltem as asas
Sem as plumas, numas.
(Secos e molhados)
Há muita coisa ainda a fazer.
Há muita coisa ainda a querer.
Há muita coisa ainda a viver, pra morrer.
Há muita coisa ainda a surgir.
Há muita coisa ainda a cantar.
Há muita coisa ainda pra ir.
Há muita coisa em qualquer lugar pra notar.
Riam, chorem , sonhem, soltem as asas
Sem as plumas, numas.
(Secos e molhados)
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