sexta-feira, 29 de agosto de 2008

"Meu filho,
Você é um ser.
Existe na mediado do mundo.
É pouco.
O mundo é a constatação da realidade exterior que te cerca.
É a tua medida inicial.
É o teu começo, mas não o teu fim.
É o chão da tua expressividade, pois você é um ser vertical.
Para cima do chão há o "invisível".
Você pode olhar os seus pés, mas não a sua própria imagem.
Esta você a percebe.
Na verticalidade está a medida da sua procura.
Quando você aceita a simples constatação da vida, aí sim, será o seu começo.
O primeiro sentimento será de perda pois tudo que cai na constatação é vivido como ganho.
Tudo adquirido como perda até a integração absoluta do "o percebido" no seu inteiror,
é a própria dinâmica da vida: perde-ganha.
Quando você se sentir no mais absoluto desespero você está sendo salvo.
Solte e aceite a tua intuição que te levará a uma aparente solução - solução esta sempre provisória.
Aceite o provisório, pois jamais o processo pode parar.
A vida pode vir a ser uma realidade extraordinária, desde que você esteja voltado para sua procura interior.
Não há realidade independente do o "interior de si".
Desconfie das coisas claras, a pureza é descoberta dentro da maior conturbação de um crise. É o ponto luminoso dentro da maior escuridão.
O teu corpo, meu filho, é o veículo da tua vivência.
Não o impeça de florir por nada. Cuide dele como você cuida do teu carro,
Toda a tua riqueza interior vai suá-lo, sujá-lo, e até sangrá-lo.
Quando ele estiver gasto externamente você mesmo estará mais inteiriço e completo interiormente.
Você o despirá um dia como a crisálida deixa o casulo.
Ai de você se neste momento você é ainda o início não elaborado, pois aí você vai saber que esteve permanentemente morto em vida."

(Carta de Lygia Clark para seu filho, 1970)

Essa carta é muito rica. Tenho uma na primeira gaveta do meu criadomudo. Sempre que necessário, recorro a ela.

Um comentário:

Julio Melo disse...

nossa, esse texto é massa
comoventimente alcoolico....


belo blog